Nas esquinas da vida...

"Se o tivesse escrito para procurar o favor do mundo eu teria me ornado de belezas emprestadas ou teria me apresentado com minha melhor pose. Quero que me vejam aqui no meu modo de ser simples, natural e ordinário, sem afetação nem artifício: é a mim mesmo que pinto". (M. de M.)

Mostrando postagens com marcador Sexo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sexo. Mostrar todas as postagens

domingo, 22 de maio de 2011

Eclipse Oculto








Olhou-me torto. Eram 5 da manhã. Tinha passado a noite em claro.
Entrei ainda cambaleando. Com a meia arrastão rasgada, batom borrado e sapatos na mão.
“Noite difícil?”, perguntou ele. Apenas assenti com a cabeça e passei pro quarto.
Naquele mesmo dia mais tarde bateu na porta me chamando para almoçar.
Sentei a mesa. Estavam todos lá. Mamãe perguntava com eu estava. Papai sério na ponta da mesa. Minha irmã folheando a revista, entre uma garfada e outra.
“Bem”, respondi. “Que bom, pois coma, deves estar com fome, fiz teu prato predileto”, disse mamãe com ternura.
Todos conversavam. Até papai ria e mal me olhava.
“Mais uma noite difícil meu amor? Você está machucado?”. “Não, estou bem. Só cansado. Andei muito. Estive com vários homens ontem e o salto ainda me mata”. “Sei bem, eu que sou mulher não aguento, imagine você...”, ela pensou no que tinha dito. “Desculpe meu filho, não quis dizer... e que você... você sabe...”. “Tudo bem mãe, entendo”. Ela beijou-me no rosto e deixou-me sozinho.   
Deitei mais um pouco. Acordei por volta das 6 da tarde. Arrumei-me. Peguei a bolsa e sai. Na sala estavam papai e mamãe. Dei boa noite e só mamãe respondeu. Ele continuava vidrado na novela.
Caminhava pela rua de casa. Alguns me elogiavam. Outros me diziam obscenidades. Na rua era diferente. Era meu palco. Rebolava e empinava o corpo, sem a menor vergonha. Ia pra noite. Mais uma noite na vida que tinha escolhido pra mim.
Cheguei ao ponto, tinha ocorrido uma briga, estavam todas aglomeradas. Uma amiga havia sido machucada, cortada no rosto por outra com uma gilete. Chorava, ensanguentada, mal dizia a companheira de ponto. A noite ia ser movimentada, pensei.
Fiz alguns programinhas pela rua mesmo. Chupei um senhorzinho baixinho atrás da banca de revista. Trepei com um garotão de 20 anos, afoito e de gozo fácil no muro perto da construção. Era a única dali que aceitava isso. Porém, o melhor da noite viria quando um carro parou próximo de mim no ponto. Perguntou se estava disponível. “Sempre”, respondi. “Entre”, ordenou a voz.
Quando entrei e vi o rosto do meu novo cliente. Quis sair, mas ele não permitiu. Eu estava ofegante, assustado. Ele disse que deveria ficar calmo. Queria apenas conhecer meu trabalho. E que deveria tratá-lo como se fosse qualquer outro cliente. Era meu pai
Partiu dali me levando a um motel. Não tinha coragem de olha-lo. Tremia, chorava baixinho. E ele apenas dirigia. “O senhor vai me bater? Quer me humilhar?”, perguntava. Ele não respondia. “Me deixe ir!! O que ganhas com isso papai?”, continuei. Ele nada respondia.
Chegamos. Ele ordenou que saísse do carro. Fomos ao quarto. Nunca o tinha visto daquele modo. Percebia sua excitação nas calças. Meu medo logo deu vazão ao tesão. “O que o senhor deseja?”, perguntei olhando em seus olhos.
Ele avançou.
Beijou-me.
Abraçou-me forte.
Mordeu-me.
Deu-me tapas.
Xingou-me.
Me fodeu.
Gemia alto. Arfava. Parecia querer aquilo há tempos.
Acabou. Jogou o dinheiro em cima da cama: cem reais.
Largou-me no motel, acabado, gozado.
Parti. “A noite continua”, pensei.
Sai zonzo.
Tinha acabado um programa com meu próprio pai.
Cheguei em casa no mesmo horário. Ele não estava lá me esperando como de costume para me julgar.
Na hora do almoço ele me chamou. “Tudo bem filho?”, perguntou. Abraçou-me. Mamãe estava feliz. Olhava para meu pai com orgulho. Aquele foi o primeiro almoço feliz que tivemos desde que assumi.
(Claro que achei estranho. Mas era muito bom me sentir da família de novo).  
Fim de tarde fui atrás de explicação. Indagado, dobrou o jornal que lia, olhou-me nos olhos e disse, “Não tá na tua hora?”. Parti para mais uma noite. Sem minha resposta. E com uma certeza. Ele iria me encontrar. 
       

domingo, 8 de maio de 2011

O resignado

Um amor doído. Para todos os resignados. 


[Os Amantes de René Magritte, 1928]


Acordei cedo. Olhei pela janela, lá fora a chuva caia fininha.
Estava sozinho.
Mais uma vez.
Na mesa um bilhete que dizia:
“Cliente novo. Te amo. Soninha”.
Levantei-me. Fui até a cozinha procurar por café. A sala estava bagunçada, desde a noite passada, do nosso amor frenético.
Catei as revistas, os porta-retratos e as chaves.
Arrumei-me. Fui trabalhar.
Lá encontrei Raul, Fernando e João.
Animados. Tinham passado a madrugada na farra. Escutei quando Fernando disse “aquela puta tinha um rabão, não tive pena”. João continuava “foda cara, meu pau tá doendo, mas gostei de ver, ela aguentou tudinho”. E Raul completou “égua, ela engoliu toda minha gala”.  As gargalhadas continuavam.
Não queria nem imaginar de quem falavam. Mas isso não me impediu de encontrar com eles. “Porra Arthur, perdeste a madrugada de ontem, pegamos uma puta muito firme” disse João. Os cumprimentei com a cabeça e antes que tivesse que me manifestar, a secretária me avisou que o chefe esperava por mim. “Ufa” pensei aliviado.
No dia seguinte. Eram outros que falavam da tal puta. E durante a semana o falatório entre os homens só aumentava. Não tinha coragem de perguntar pra Sônia se era ela que andava fazendo hora extra com aqueles filhos da puta.
Ela é tão linda. Cabe direitinho no meu peito. Suas mãos acariciam meu rosto, meu nariz, minha boca e descansam no meu peito. Fazemos amor. Em cabelo em desalinho, ela sorri e geme baixinho. Pra mim é o suficiente. Pra ela não.
Na sexta-feira decidi conhecer a tal puta que todos comentavam. Estava com o coração na mão. Partimos pra um motel qualquer. Íamos no carro de Fernando. Todos estavam eufóricos.
Quando vi aquela mulher de costas – a meia luz – que iniciava uma dança sensual na cama fiquei aliviado. Não se tratava de Sônia. Era loura. Ela dançava e rebolava. Só de fio dental. Os rapazes estavam loucos. No cio. Gritavam. Deflagravam tapas na moça e diziam obscenidades.
Minha tranquilidade durou pouco. Ela virou de frente. E paralisou assustada a me ver na plateia. Virei pedra. Os rapazes gritavam insanos. Eu apenas fiz um sinal de que ela deveria continuar.
Raul foi o primeiro a tirar o pau das calças e puxar a garota com violência para chupá-lo. Ela olhava-me nos olhos. Rapidamente veio  Fernando oferecendo-a seu pau também. Ela chupava com agilidade sem tirar os olhos de mim. João sem entrar na disputa, penetrou-lhe o cu. Os quatro fodiam feito animais. A moça era surrada por picas. Sem reclamar. E eu chorei.
Numa dessas, João puxa o cabelo da puta, retirando-lhe a peruca que usava. Tive certeza que se tratava de Sônia. As lágrimas rolavam meu rosto e os dela também. Agora os rapazes se revessavam. Fernando deitado penetrando-lhe a buceta e Raul o cu. João fodia a boca, engasgando minha puta.
Ela me chamou. Pediu-me para fode-la como a puta que era ali. Os rapazes viram que eu chorava. Mesmo assim estava de pau duro.  Não tive dó algum: mordi, bati, xinguei e chorei. Fodia com ódio e amor que tinha por ela.
Lambuzei-a com meu gozo na cara.    
Sem dizer nada a alguém, sai do motel transtornado. Sentei num boteco na praça. Pedi uma dose de rum. Depois fui pra casa.
Ela estava lá. Tinha feito o jantar. Esperava por mim. Beijei sua boca. E sentamos para comer.
Mais um dia chegava ao fim, para nós dois.   
   


domingo, 1 de maio de 2011

Pedro



Pedro caminhava pela rua, cantarolando. Calça branca, blusa azul escura, sapatos surrados e boné velho. Quem passa por ele na rua – um homem trabalhor – não imaginava o que ele tinha feito no passado. Aos 43 anos, ganhava a vida como “chapa” na beirada da BR-316. Passava o dia esperando que um caminhão parasse, para ganhar um trocado qualquer, o suficiente para tomar uma dose no Seu Matinho. Isso já lhe bastava.
Numa quarta-feira dessas Pedro encontrou Chico, seu cumpadre de longas datas e de muitas bebedeiras. Sentaram-se no Seu Matinho, como de costume, e pediram a famosa dose do dia. Chico lhe falava que tinha tido notícias de Joana, sua esposa e que ela estava muito doente. Pedro apenas lamentava. E o papo continuou, até que Pedro recebeu um tiro certeiro, que lhe atingiu a fronte, sem ter a menor chance de vida. Do seu matador, apenas a poeira foi vista.
O comentário durou uma semana. E depois disso ninguém mais se lembrava de Pedro. Aquele “malandro da estrada” que aponsentara a boemia e nem mulher tinha. Apenas uma pessoa ainda se inquietava com a morte de Pedro: Chico. Preocupado, pensava por que não estava morto também? Chico não desejava morrer, apesar de merecer.

***

Pedro e Chico se conheceram em 1983, no presídio São José. Ambos eram acusados de crimes hediondos, mas que jamais foi assunto de conversa entre os dois. Pedro era um homem estudado e apreciava estuprar meninos. No entanto, sem provas suficientes contra Pedro, ele logo saiu, não passando nem 2 anos no presídio. “Este malandro não era um doente, era cínico”, dizia Sara, sua esposa.
Pedro logo retomou os estudos em casa mesmo. Não conseguia deixar de ler os clássicos. Chico saira dois anos depois. E foi trabalhar na feira de São Braz. Era carregador de frutas. O destino parecia querer unir os dois malandros, já que Pedro morava nas rendondezas da feira. Certo domingo, os dois amigos encontraram-se por acaso. Abraçaram-se intensamente, com aqueles tapinhas nas costas, logo rumaram para um barzinho ali próximo. Tinham que colocar a conversa em dias.
Chico contara que sua vida não estava fácil, trabalhava duro, mas que tinha conhecido uma formosura de morena. Joana Palheta, esse era o nome da mulher amada. Apesar de tudo estava feliz. Pedro falara que estava bem. Estudando. Contudo, a passagem pela cadeia impedia seu regresso a Universidade. Quando indagado por Chico se ele estava enlaçado por alguma mulher. Pedro gargalhou e respondeu: “Mano, não sou disto, sabes bem!”. Chico não acreditava que Pedro ainda estava nessa vida. E completou: “Toma tento homem, isso é problema. Deixa disso. Procura uma mulher pra ti, isso sim que é certo”. Pedro não escutara e mudaram de assunto.
Permaneceram no bar do Lauro até altas horas. Lauro era grande apreciador de Noel, Cartola e Chico e Paulo Diniz.  Pedro cantolava junto, falando para Chico sobre a MPB. O amigo não tinha nem a quinta série, mas escutava com ânimo o amigo falar com grande propriedade e embriaguez.
Sairam do bar cambalendo, abraçados, fazendo farra pela madrugada. Chico ainda estava em si, mas Pedro estava completamente entregue ao porre, falando alto pelas ruas desertas de São Braz. Depois desta noite, outras vieram, no bar do Lauro; no bar do Parque; quando os fanfarrões tinham dinheiro sobrando; no bar do Pixito e por todos os outros “pés sujos” da cidade. E foi justamente no bar do Parque, que Pedro conheceu Sara. Uma garota de programa, morena cor de jambo, lábios carnudos e cabelos negros.
Pedro ficou encantado. “Como é bonita aquela puta”, dizia a Chico, que apenas ria. De lá, ela olhava para Pedro maliciosamente, mas já estava acompanhada por um gringo. Pedro passou a noite observando a morena e quando já tinha tomado todas e mais umas, decidiu ir até a mesa de Sara. Aproximou-se, deu boa noite e pediu para falar com a moça. O gringo, não entendendo nada e pelo estado de Pedro, ficou assustado, mas logo foi acalmado pela acompanhante.  
Ele, cínico de maternidade, pegou pelas mãos dela, e lascou um beijo, apresentando-se. Ela apenas riu e explicou que naquela noite não poderia acompanhá-lo, mas que numa outra noite quem sabe. Pedro assustou-se com a resposta direta de Sara e disse: “Mas não quero passar uma noite contigo morena, quero casar”. Sara ria das bobagens daquele bêbado ousado. E acabou respondendo que na próxima vez que eles se encontrassem ela se casaria, mas que naquela noite não poderia.
O dia amanhaceu e Pedro e Chico estavam no Ver-O-Peso tomando caldo de motocó, na tentativa de amenizar a ressaca. Pedro ainda falava de Sara. Chico apenas escutava o amigo semi-bêbado, falando com ar desejoso da morena. Pedro não entendia por que não conseguia parar de pensar nela. Chico atreveu falar: “Tu ta apaixonado homem. Isso é normal sabia? Aliás, isso sim é normal”. Pedro nem dava atenção, apenas pensava naquela pele e lábios.
Depois desta noitada, Chico e Pedro, passaram dias sem se encontrar. Pedro estava trabalhando como professor num cursinho da cidade. Afinal, precisava de dinheiro, farrear lhe custava caro, e apesar de sozinho, precisava comer e pagar o aluguel do quartinho nos cuvões. Porém, o jejum durou pouco. Numa sexta-feira treze, Pedro encontrou com Chico no bar do Lauro e lá foi só o princípio da noite. Foram para o bar do Parque. Pedro nem pensava na morena, mas quando se aproximou da praça, avistou de longe, aquele corpo arrendodado na esquina, aguardando por companhia. Não exitou e se aproximou da moça, dando-lhe boa noite, perguntando se naquela noite estava disponível para casar com ele. Ela sorriu e disse que sim. Lá foram os três para o bar.
De fato, Sara foi a única mulher que Pedro se apaixonou. Com ela, ele se casou. Sem ter nenhum filho. Viveram de 1985 até 2005. Um casamento conturbado, cheio de traições, injúrias, agreções, violência e bebedeira. Sara descobriu de forma mais cruel que Pedro era “entendido”. Certo dia chegou a casa onde moravam e encontrou Pedro desmanchando-se em prazer no peito de seu sobrinho. A formosa morena de antes, agora uma mulher de idade, não contou conversa, partiu para cima de ambos, lhes deflagrando tapas e bolsadas, com ódio no olhar. Gritava ensandecida, colocando ambos para fora de casa, semi-nus, para que todos vissem que seu marido era um cínico de materniadade.    
Pedro não tendo para onde ir, foi para casa de Chico pedir abrigo. Joana não gostava da ideia de ter Pedro por perto, sabia de sua libertinagem e sua presença era uma heresia. Mesmo contra gosto de Joana, Pedro ficou. Chico sempre apoiou o amigo, lhe devia a vida. Quando estavam bebados, Chico contava uma história que tinha ocorrido nos tempos de presídio, de que como Pedro tinha salvado sua dignidade. Portanto, faria tudo pelo amigo, jamais poderia lhe pagar essa dívida.
Pedro ficou e ali começou a estabelecer seus maus hábitos. Bebia quase todos os dias, levando Chico com ele. Joana ficava furiosa. Logo fez amizade com os rapazes na boemia, que tinham a esquina como ponto de encontro. De quinta a domingo  quem passe na esquina do conjunto Catalina, encontraria Pedro e Chico, cantando, bebendo e fumando, numa roda de samba. Lá cantavam Chico, Cartola, Chapelão, Bezerra, e Noel Rosa, claro.
Com seu ar intelectual, logo passou a ser admirado pelos amigos. Sempre falava trechos de obras que aqueles homens jamais tinham escutado falar. Além de recitar os trechos, ainda comentava com sabedoria e pomposidade. Às vezes, pouco sentido tinha para aqueles homens, mas todos deixavam que Pedro continuasse.
Neste mesmo grupo, surgiu um jovem. Ele tinha apenas 17 anos. Chamava-se Bertoldo. Era das rendodesas e se aproximara do grupo por causa de Pedro. Por causa dele, Bertoldo queria estudar. Pouco falava, mas quando dirigia alguma palavra, era sempre direcionada para seu muso.
Pedro enxergava Bertoldo de outro modo. Ele era jovem, alto, moreno, pele lisa, olhos negros, lábios grandes, sorriso encantador, “uma delícia” – pensava ele. Sempre tivera desejos por aquele jovem, nem o conhecia, mas sabia o que queria. Contudo, não queria assustá-lo. Certo dia, Bertoldo apareceu na casa de Chico, procurando por Pedro, obviamente. E para o deleite de Pedro, ele estava sozinho e logo mandou Bertoldo entrar. Ofereceu-lhe um copo de suco de acerola. E os dois ficaram conversando no sofá. O jovem falava com ânimo de como estava gostando das leituras que Pedro havia lhe indicado e Pedro o observava fixamente, com forte desejo de agarrar aquele rapazinho.
Pedro interrompeu o jovem e perguntou no seco: “Berto, me fala uma coisa, onde tua mãe arrumou tanta formosura pra ti?”. O rapaz ria desconcertado. Não sabia o que responder. E Pedro continou sua investida. “Olha como me deixas. Fico assim toda vez que chegas perto de mim. Me deixas com um tesão louco!”. Bertoldo não sabia o que falar e aquela situação estava lhe assustando. Quando se levantava para partir, Pedro foi mais rápido e não permitiu que ele saísse. Agarrando-lhe forte e jogando-o contra a parede. Partindo para beijos ardentes e pegadas ousadas. O jovem tentava se livrar, mas suas tentativas eram inutéis.
Pedro foi mais rápido e jogou Bertoldo de bruços no sofá, buscando saciar aquele desejo. Neste momento, Chico chegara, flagrando aquela cena. E não acreditava no que via. Estava estático ao ver que o amigo tomava a força o jovem. Bertoldo chorava e pedia para Chico lhe ajudasse, porém, Pedro foi mais enfático e ordenou que Chico segurasse o rapaz. E assim foi, a tragédia.
Pedro não sabia com quem tinha se metido. Era o malandro da esquina. Mas não sabia que o jovem que tanto lhe admirava era filho de cidadão “influente” nas redondezas do Tapanã. E assim que soube o que tinha acontecido ao jovem, mandou caçar a dupla de malandros.  
        Logos os dois empreenderam fuga para uma cidade na beira da BR. Ninguém sabia do paradeiro deles. Passados dois anos após o ocorrido. Pedro levava uma vida tranquila. Já nem pensava no que tinha acontecido. Saia para trabalhar e beber sua dose, todos os dias. Até que a bala por encomenda o encontrou. Chico pensava na vida e a pergunta não saia de sua cabeça, “mas se ele estava morto, porque eu não?”.
Chico tinha se arrependido do que tinha feito. No seu exílio, pedira perdão inúmeras vezes a Deus. Receiava ir para o inferno por conta daquilo. Depois da morte de Pedro, ele permaneceu morando na mesma casinha que ambos moravam. Duas semanas depois da morte do amigo, Chico fumava um cigarrinho, sentando na calçada. Pensava que se não tinha morrindo até aquele dia não morreria mais. Quando um estranho se aproximou de Chico e disse: “Homem.” Chico olhou rápido e nem pensou....