Nas esquinas da vida...

"Se o tivesse escrito para procurar o favor do mundo eu teria me ornado de belezas emprestadas ou teria me apresentado com minha melhor pose. Quero que me vejam aqui no meu modo de ser simples, natural e ordinário, sem afetação nem artifício: é a mim mesmo que pinto". (M. de M.)

terça-feira, 19 de abril de 2011

Delícia de desconhecido...



        Era luar e eu estava arrumada, ia encontrar os amigos, a noite ia ser diferente. Deixei a circunstância me levar e o desejo de algo novo me empolgar.

Os planos não existiam, mas a vontade de ir fundo sim. Olhei para o céu, a lua estava linda, guiava-me e obscurecia meu caminho, me levando para o submundo.
Ia sambar, beber, fumar. 
A rua sempre deserta para os amantes e os ladrões. Encruzilhada perfeita para os desavisados, caminhávamos em risadas, cambaleando, e eu jogando charme para os poucos homens que passavam.
Esse não seria um dos melhores contos, mas sem dúvida, umas das experiências mais interessantes. Não conseguiria colocar no papel a sinestesia.
Chegamos ao recinto, uma briga acontecia, atravessando a rua, as risadas deram lugar a murmurinhos. Não sabíamos se devíamos seguir, e quando demos por nós estávamos muito bem acomodados numa mesa.
Olhávamos o lugar com curiosidade, os homens eram rudes e as mulheres dominavam o lugar, e isso nos fazia querer permanecer.
A cerveja chegou trincando de gelada, três copos nos foram servidos, o valor era atraente. Cada mesa me pareceu um universo diferente, a clientela era diversificada e com objetivos diversos. Inclusive nós estávamos nesse balanço.
Descobrimos que a briga que vimos na chegada era entre vítima e ladrão, vamos chamar assim. Preferimos não conjecturar. O banheiro parecia coisa de filme pornô barato. Ao invés no nojo, senti um estranho prazer. Em cima do refrigerador tinha uma colher de pedreiro, não sei bem, cheguei a pegar. Mas não lembro o que veio depois.
Os homens eram estranhamente interessantes, cada um ao seu modo, os s olhares eram inevitáveis, só lembro o pouco que vi. Até a polícia passou por lá a fim de tratar da briga que acontecera horas antes.
A noite seguiu, depois de algumas garrafas, saldo total de oito, sendo uma quebrada. A mesa a frente começa seu espetáculo, os homens que antes cantavam sambas, agora se digladiavam. Não soubemos o motivo, mas a briga continuou.
 Isso nos pareceu comum ali, o garçom seguindo uma espécie de cartilha ou ritual, a fim de não perder o lucro, se aproximou recolhendo os cascos e conversando com uma das mulheres que acompanhavam os sambistas bons de tapa. O pagamento fora feito e a briga continuou.
Olhei todos no entorno, ninguém se importava com a briga dos vizinhos de mesa, todos muito bem preocupados com seus copos e o papo comia.
Decidimos que aquilo já nos bastava. Saímos cambaleando pela rua escura – apenas os mendigos dormiam e poucos carros passavam – tendo a certeza que aquela experiência seria a primeira de muitas.    
  

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