Por conta da noite passada, que me rendeu muitas risadas, tapas e mordidas escrevo esse continho.
"Eu era um imoral, sujo, safado, sem pudor algum" - Conta Raimundo.
Cresci vendo meu pai com os amigos sentados na esquina da rua de casa. Bebendo cachaça, escutando brega no rádinho de pilha, fumando cigarro vagabundo e mexendo com o mulherio que passava.
Todos eram casados. E as mulheres eram santas de altar. Sempre escutava minha mãe falar pras amigas que Sebastião, meu pai, era o melhor homem do mundo - que deus a livre. Não dava trabalho em casa. Era trabalhador. Sem vícios. E ir a esquina com os chegados e ao jogo do Remo, era a diversão suficiente pra ele. Assim acreditava ela. E fato. Meu pai aparentava ser um senhor muito sério. Era respeitado e temido entre os seus.
Anos depois, já rapaz, conheci outro Sebastião. Chamado de Tião Gavião na noite. De sexta a domingo, quando ela dizia em casa que fazia extra no trabalho, ele seguia para a casa de Dona Mara. O puteiro mais despintado e frequentando das redondezas. Recheado de ninfetas recém-chegadas do interior.
Eu era o mais velho de três irmãos. Cedo meu pai me apresentou esse mundo dos homens. Com quinze anos já frequentava a casa de Dona Mara. Bebia e fumava. Lá conheci Raimundo: “Cínico, decrépito, desgrenhado e gordo”, assim mamãe o chamava.
Vivia na Mara. Paquerando algumas meninas. Apalpando outras. Tomando uma cerveja, com um cigarro no canto da boca. Raimundo era um homem boa praça. Moreno, estilo brutamontes. As meninas o cercavam quando ele chegava. Com ele na casa não tinha puta pobre e nem triste.
Não foram poucas as noites que vi Raimundo trepando, sendo chupado, em posições animalescas. Em público, ao vivo e a cores. O recinto era propício. A "fulegarem" estava no ar. O cheiro era forte, de sexo, cachaça, cigarro e erva. Sem contar, com os peitinhos durinhos que desfilavam de fora. Uma visão dos "infernos".
Certa noite a farra foi interrompida. Bem como meu pai, Raimundo era casado e tinha uma reta de filhos. E todo mundo sabia do seu maior vício: a libertinagem. Era casado com Dona Joana, uma senhora evangélica que lutava para tentar desentortar a vida do marido.
Na noite do dia 1º de maio, quando todos os homens estavam reunidos na casa de Dona Mara, festejando o ócio, eis que a porta é arrombada e uma onda de senhoras com bíblias e velas, seguidas de homens entoando trechos bíblicos, invadem o puteiro, liderados por Dona Joana.
O corre-corre foi geral. Poucas roupas cobriam as partes. Estavam todos trepando no salão principal. Todos os pais de famílias estavam lá. Atracados com ninfetinhas. E no meio da confusão escutávamos: “Sai Satanás”, “Sangue de Jesus”, “Queima” e uma série de outros bordões religiosos... Causando maior alvoroço entre clientes e evangélicos.
Dona Joana procurava loucamente por Raimundo dentro do antro. Gritando: “Quede aquele “do mundo”?”. Enquanto isso, o homem estava fodendo até não poder mais com uma jovem de lindos seios, puxando por seus cabelos e deflagrando tapas em seu rosto.
Quando ela o encontrou ficou chocada e ao menos tempo rezava e gritava pedindo perdão a deus pelo marido ordinário que tinha. Aos poucos, a “rezadeira” deu lugar a lamúrias. E a mulher põe-se a chorar.
No mínimo Raimundo parou a “fodelança”. Mas ao invés de consolar Joana. Passou a xingá-la. O homem não teve pena de sua santa esposa e disparou um turbilhão:
“Sua ordinária. O que fazes aqui? Não sei por que te metes a besta de vim me procurar. Sua vadia. Pois saibas que não te quero mais. Vais virar puta de rua. Dar pra’queles homens que catam os centavos pra comer uma macaquinha que seja...”
Dona Joana humilhada saiu correndo do puteiro. Arrasada.
No dia seguinte, a casa que antes não chamava atenção alguma, amanheceu fechada e com velas e uma bíblia na entrada. Na porta a placa dizia: “Fechada por motivo de desordem pública”. Todos os homens flagrados lá andavam de cabeça baixa pela rua. Somente Raimundo andava de cabeça erguida. Como se nada tivesse ocorrido.
E mais impressionante. Com Dona Joana a tira colo. Um casal perfeito, diria o desavisado. De alguma forma eles se entenderam. Joana e Raimundo viraram uma lenda. Eram citados entre brigas de casais e em conversinhas de botecos.
Depois do ocorrido a casa reabriu, para felicidade geral dos homens. As mulheres acabaram aceitaram a condição de santas de altar. Inclusive Joana. E tudo voltou ao normal. Com um diferencial. Mais do que nunca, “o homem era o dono do morro”, como diria Raimundo no dito popular.
Hoje vejo aquele velho sentado na porta de sua casa. Doente. Vez ou outra passo por lá pra saudá-lo. E custo a acreditar que aquele homem velho hoje foi um dia aquele homem vigoroso. Raimundo separou-se de Joana anos depois, pra casar com uma das moças da casa. Mas tudo foi golpe. Ela roubou dele até os discos de samba. Deixando-o pobre na miséria.
"Tudo o que um dia foi ouro, hoje já não brilha mais" - Ele costuma falar. Vive sozinho. Poucos sabem que o famoso dono do morro de outrora, fora aquele velho. Tornou-se lenda.

2 comentários:
Prezado Barão, toda a ralé, os pífios, a canalha, a gente miúda, estão bem representados neste blog escandalosamente lindo! Bj
Obrigada "País estrangeiro" =D. Seja bem vindo!!
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